Agentes de viagem angolanos acreditam estar num mercado com “muito potencial”

27-05-2019 (16h39)

O papel das agências de viagem no Turismo em Angola está limitado por dificuldades como a falta de divisas e de infra-estruturas, os elevados custos e a fraca competitividade, tornando a actividade dos operadores uma aventura, comentaram agentes de viagens de quatro empresas ouvidos pela Agência Lusa.

Apesar dessas dificuldades, a perspectiva é de que o mercado vai melhorar, sobretudo depois de Luanda ter acolhido o Fórum Mundial do Turismo, em que ficou demonstrada a aposta do Governo num sector ainda “virgem” e com “muito potencial”.

“As agências de viagem ainda têm um caminho muito grande a percorrer. Somos pioneiros. Neste momento, há a intenção por parte do Governo para podermos evoluir um pouco mais, de investir no sector em que o mercado não está delineado. Ainda não sabemos definir o que são agentes de viagem e agentes de turismo. Isso quer dizer que, nós, agentes de viagens, temos sido praticamente grandes aventureiros no sector, porque temos estado a fazer este duplo papel”, disse à Lusa o CEO da Mesant Viagens.

Para Júlio Antunes, os problemas avolumam-se com o "cepticismo" reinante no sector, complicando-se na questão do acesso aos vistos, nas acessibilidades, nos transportes aéreos e terrestres, na qualidade das unidades hoteleiras, na falta de luz e de água, factores que encarecem o preço final a ser cobrado ao turista.

As queixas são comuns também às outras agências, uma vez que as directoras executivas da Agência de Viagens Tropicana, Amélia Bravo, e da Atlântida WTA Viagens, Isabel Apolinário, e à responsável do Grupo Alive Travel em Benguela (Sul), Rebeca Barreiros, que referiram as mesmas dificuldades no exercício de uma actividade que, em Angola, se pode tornar “muito rentável” e ser até “o novo petróleo”.

“É preciso muito diálogo com o Governo. Há muitas razões que impedem o turismo de se tornar um factor de desenvolvimento. Mas podemos ter sucesso e fazer do turismo um ‘novo petróleo’ em Angola, com uma grande receita”, acrescentou Júlio Antunes.

Para os quatro, as viagens internas são um peso muito grande no custo e a crise económica só veio agravar ainda mais um sector que nunca se desenvolveu e que nunca soube aproveitar os dinheiros das receitas petrolíferas.

“O turismo interno, para os nacionais e para estrangeiros que vivem em Angola, ainda é algo bastante caro. Para alguém se deslocar, as passagens aéreas têm valores bastante elevados, o que vai tornar-se menos competitivo do que em relação a São Tomé e Príncipe, Namíbia ou África do Sul. O estado das estradas também não facilita que haja o desenvolvimento de uma procura para as pessoas se movimentarem por meios próprios e acaba por tornar-se muito mais caro”, sublinhou Rebeca Barreiros.

Segundo a responsável do Grupo Alive Travel, com sede em Benguela, o interior está ainda pouco ou nada apetrechado em infra-estruturas, com falta de recursos humanos e com hotéis em que a qualidade deixa a desejar.

“O grande constrangimento são os recursos. Os acessos são muito difíceis. Há hotéis nas províncias, mas nos pontos-chave turísticos por vezes não existem. Faltam recursos humanos capacitados, que atendam o turista de uma forma como estão habituados", disse, por sua vez, Isabel Apolinário.

“Falta água, falta luz, os hotéis têm muita dificuldade porque pagam somas muito elevadas para terem água nos hotéis, a luz é à base de geradores. Toda esta infra-estrutura que falta vai penalizar o turista, porque os preços são caros”, realçou Isabel Apolinário.

Também Amélia Bravo lamenta que a crise financeira tenha ofuscado o turismo interno e internacional, em que as companhias aéreas, por exemplo, conseguem ter os mesmos serviços que as agências, mas com melhores preços.

“Com a crise, muita gente já não viaja e já não procura os serviços da agência, preferindo ir directamente ao local onde se compra o bilhete que, se calhar, até fica muito mais barato. Somos revendedores dos bilhetes e muitas vezes as classes que temos são as mais caras. Um cliente que venha à agência prefere ir, depois, aos balcões das companhias aéreas, onde os bilhetes são mais baratos”, disse Amélia Bravo.

A queixa de Júlio Antunes vai, porém, mais longe: “A nossa companhia de bandeira, a TAAG, está infelizmente num pé de superioridade em relação a nós, porque tem os mesmos serviços que nós e com melhores preços. Somos revendedores de serviços e estamos a ficar fora da corrida”.

As companhias aéreas cobram um valor “muito alto” pela caução e há empresas que, com ou sem contratos, “não honram" os compromissos”, o que acaba por limitar a actividade num sector “muito dinâmico, em que é o capital circulante que faz andar as agências”.

Isabel Apolinário lembra que o sector, até há bem poucos anos, vivia do corporate, uma vez que o turismo “não era, de facto uma grande realidade”, mas até nesse nicho de mercado a actividade está com dificuldade, com o consequente fecho de portas de muitas empresas.

“Mas continuamos com o mesmo problema que já data de alguns anos, as divisas, mesmo o pouco turismo que é pedido, é muito difícil, porque não temos como pagar no exterior”, afirmou.

(PressTUR com Agência Lusa)

 

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