Destroços de navio ao largo de Cascais vão constituir “reserva cultural subaquática"

12-10-2020 (19h28)

Foto: Unsplash / Noaa
Foto: Unsplash / Noaa

Investigadores da Universidade Nova de Lisboa disseram que, agora que foi localizado o destroço do navio Terje Viken, o primeiro navio a ser afundado em águas portuguesas durante a Primeira Grande Guerra, vai proceder-se "ao seu estudo e registo com o objectivo de o salvaguardar e o constituir como reserva cultural subaquática".

O episódio do "Terje Viken" surgiu no contexto da declaração de guerra da Alemanha a Portugal em Março de 1916, tendo "os mares portugueses passado de neutros a prováveis campos de batalha", disseram à Lusa o historiador naval Paulo Costa e o arqueólogo marítimo Alexandre Monteiro, da Universidade Nova de Lisboa (UNL).

O "Terje Virken" pertencia à companhia Wilhelm Wilhelmsen, de Tønsberg, na Noruega e tinha sido lançado ao mar a 18 de Outubro de 1902 pelos estaleiros ingleses da Tyne Iron Shipbuilding, de Newcastle.

O navio tomara o seu nome de um poema de Henrik Ibsen, publicado em 1862, e era tripulado por 27 homens, sob o comando de Carl Leander Halvorsen, tendo zarpado de Galveston, no Texas, a 17 de Março de 1916, com um carregamento de trigo destinado a Lisboa, "cidade que vivia então à míngua de cereal para panificação".

"Lendo o relatório confidencial elaborado pela Marinha Portuguesa, os assentos produzidos pelo cônsul da Noruega em Lisboa e o livro de bordo do navio, é possível reconstituir os eventos que conduziram ao afundamento do Terje Viken", disse Monteiro.
Segundo o historiador naval Paulo Costa e o arqueólogo marítimo Alexandre Monteiro, o vapor, "comunicando por sinais com terra, soube que não só lhe seria impossível entrar em Lisboa sem um piloto local a bordo como também não lhe seria permitido entrar na barra depois do pôr do Sol".

"Os noruegueses içaram então a flâmula S, pedindo um piloto. Responderam-lhes de terra com a flâmula C, que sim, que lhes iriam enviar um piloto. Para evitar possíveis campos de minas, o capitão do Terje Viken manteve o navio em águas profundas".

Reconstituindo o episódio do dia 17 de Abril de 1916, junto à saída da barra, o Terje Viken cruzou-se com seis navios-patrulha portugueses que se dirigiam ao cabo Espichel, mas o barco dos pilotos não se avistava.

Às 17h30, o capitão do Terje Viken notou "um navio a servir de guarda-costas, ancorado defronte à Guia, em Cascais. Faz proa sobre ele, para indagar junto do seu comandante o porquê da demora em vir o piloto pedido".

"O vento era ‘de Norte, fraco, a maré estava no final da vasante, correndo com força'. O tempo estava ‘esplêndido, com horizontes claros e extensos'", e às 17h45, “quando Terje Viken se encontrava a quatro milhas da Guia, numa ‘linha direita traçada entre os cabos Raso e Espichel', a sua sorte termina, dando em cheio num campo de 12 minas deixadas poucas horas antes pelo submarino alemão U73", relataram os investigadores citando documentos coevos.

"A primeira mina detonou junto ao tanque de lastro da proa, a bombordo. Depois de um breve momento de hesitação, o capitão manda parar a máquina. É então que se dá a segunda explosão, também a bombordo, junto ao reservatório número um, logo atrás de onde ocorrera a primeira", disseram os investigadores à Lusa, fazendo a reconstituição do episódio.

Os fragmentos metálicos das minas que caíram na ponte do navio, foram levados pelo capitão para a Noruega, neutral no conflito, "como prova da agressão alemã".

Sucedeu uma terceira explosão, e o comandante pediu ao capitão do navio guarda-costas, que se aproximara, para lhe passar um cabo, mas este recusou-se.

"O vapor começou a afundar-se pela proa, e a ordem de abandonar navio foi dada", tendo os 26 tripulantes, "incólumes", embarcado nos escaleres salva-vidas. A bordo permaneceu apenas o capitão Halvorsen, "que o abandonou quando a água do mar chegou à ponte de comando".

O comandante e o imediato do navio queixaram-se ao cônsul da Noruega em Lisboa das autoridades portuárias portuguesas, "dizendo preto no branco que a perda do navio se devera à falta de vigilância por parte dos portugueses".

O capitão afirmou mesmo que "o afundamento do seu navio se devera à falta de assistência do barco-piloto, um ‘rebocador grande', cujo comandante se negara a passar-lhe um cabo para o rebocar das águas profundas onde fora atingido pelas minas até um banco de areia na barra, onde pudesse encalhar, evitando o naufrágio".

Para os investigadores, "o episódio do afundamento do Terje Viken teve duas consequências: trouxe à jovem República Portuguesa a certeza material que a guerra que então se travava em terra na longínqua Flandres também lhe podia bater à porta, e com estrondo, e que a marinha mercante estrangeira e os aliados ingleses descobriam o quão impreparadas estavam a Marinha e as autoridades portuárias lusas para a nova realidade que se vivia no mar".

Em simultâneo, "totalmente dependente do seu porto para se abastecer em cereais, combustíveis e armamento, Lisboa descobria horrorizada que urgia defender a barra do Tejo da insidiosa e invisível ameaça submarina alemã".

(PressTUR com Agência Lusa)

Clique para ver mais: Cá Dentro

Share
Tweet
+1
Share
Comentários
Escrever comentário

Outras Notícias

Estação Náutica do Alto Minho promove desportos radicais e inclusivos

02-03-2021 (09h43)

A Estação Náutica do Alto Minho está a promover desportos radicais como kayak ao luar, wakeboard, canyoning, e-bike e eco-rafting através de diferentes empresas.

Museu da Farmácia dedica tertúlia à relação de Eça de Queiroz com o Egipto

01-03-2021 (17h54)

O Museu da Farmácia vai realizar a tertúlia online "O Egipto na literatura e vida de Eça de Queiroz" na próxima sexta-feira, 5 de Março, às 18h.

Turismo da Jamaica lança programa de circuitos de bicicleta

01-03-2021 (16h58)

O Turismo da Jamaica (Jamaica Tourism Board), em parceria com a Associação de Ciclismo da Jamaica), lançou o programa Discover Jamaica by Bike, que consiste numa série de eventos de ciclismo para visitantes e locais terem oportunidade de conhecer o país de uma forma saudável.

Viajar Tours lança campanha de descontos para férias de Verão na Tunísia

01-03-2021 (14h24)

O operador turístico Viajar Tours lançou hoje para o mercado a sua campanha Top Top Summer, com descontos até 25% e alojamento grátis para crianças nos seus pacotes para férias de Verão na Tunísia.

Madeira adia Festa da Flor e cancela Festival do Atlântico

26-02-2021 (18h33)

O governo da Madeira adiou a Festa da Flor, que estava prevista para Maio, e cancelou o Festival do Atlântico, que ia decorrer em Junho, devido à pandemia.

Opinião e Análise