Notre-Dame vai ser reconstruída com base no projecto do século XIX de Viollet-le-Duc

10-07-2020 (12h59)

Foto: Unsplash / Hannah Reding
Foto: Unsplash / Hannah Reding

O Presidente francês, que planeava equipar Notre-Dame com um novo pináculo com um estilo arquitectónico contemporâneo após o incêndio, tem agora “a convicção” de que a catedral e o pináculo devem ser restaurados da mesma forma, anunciou hoje o Palácio do Eliseu.

Emmanuel Macron “adquiriu a convicção” de que a catedral deve ser restaurada no estado original, disse a Presidência esta noite, depois de uma reunião da Comissão Nacional de Património e Arquitetura (CNPA), composta por autoridades, especialistas e arquitectos da obra.

“O Presidente confiou nos especialistas e pré aprovou as principais linhas do projecto apresentado pelo arquitecto-chefe, Philippe Villeneuve, que planeia reconstruir o pináculo de forma idêntica”, disse a presidência.

Este projeto propõe globalmente uma restauração de Notre-Dame e da flecha [pináculo] da maneira mais próxima ao seu estado antes do incêndio que ocorreu na noite de 15 de Abril de 2019.

O chefe de Estado mencionou, logo após o desastre, a possibilidade de um “gesto arquitectónico contemporâneo” para reconstruir a catedral, estimulando a imaginação de muitos arquitectos. Alguns propuseram uma torre de vidro, a criação de um parque de jardins orgânicos no telhado ou um terraço panorâmico.

O arquitecto Philippe Villeneuve sempre defendeu a fidelidade à obra retocada no estilo gótico no século XIX, por Viollet-le-Duc, da qual todos os planos são mantidos, e argumentou que essa opção possibilita cumprir melhor os prazos de reconstrução em cinco anos, conforme desejado por Macron.

Uma opinião clara que deu origem a um conflito insólito, no fim de 2019, com o general Jean-Louis Georgelin, nomeado para supervisionar o local, que pediu ao arquitecto-chefe para “fechar a boca”, depois da sua oposição a um pináculo contemporâneo.

Hoje, Villeneuve apresentou um dossiê de 3.000 páginas para passar em revista os métodos que recomenda para restaurar a estrutura, o tecto e a flecha da catedral, os assuntos mais sensíveis que provocaram uma disputa entre o antigo e o moderno.

No final da reunião, que durou quatro horas, o CNPA “aprovou por unanimidade” a restauração da arquitectura de Viollet-le-Duc “no que diz respeito à cobertura e à flecha, respeitando os materiais de origem”, segundo afirmou à agência francesa France-Presse Jean-Pierre Leleux, senador à frente dessa comissão.

Em relação à estrutura, sobre a qual também houve debate, um estudo que vai sair em breve especifica exactamente os contornos da reconstrução que será feita em madeira.

Antes de tomar uma decisão, todos os cenários foram considerados, segundo Leleux, inclusivamente deixar a catedral no estado atual.

“A preocupação do Presidente não era de retardar a obra ou complicar o processo. Era necessário esclarecer as coisas rapidamente”, explicou a Presidência.

“Se fosse necessário fabricar um pináculo contemporâneo, seria necessário um concurso específico, o qual poderia potenciar um atraso nas obras. As consultas com grandes arquitectos levaram a dizer que essa aposta na flecha contemporânea era muito complicada e que um gesto contemporâneo poderia imaginar o contrário”, prosseguiu o Eliseu.

A catedral encontrava-se em obras de restauro no seu exterior quando, em abril do ano passado, deflagrou um violento incêndio que demorou cerca de 15 horas a ser extinto.

A origem acidental do incêndio, um curto-circuito, continua a ser privilegiada, embora a causa do fogo não esteja esclarecida, e os resíduos calcinados deverão ser analisados ao pormenor para detectar o menor indício.

As obras de Notre-Dame têm enfrentado vários imprevistos, desde a necessidade de adoptar medidas contra a contaminação por chumbo até à crise do novo coronavírus, passando pelo mau tempo no final de 2019, mas foram retomadas no final de Abril.

Adiado devido ao confinamento, o delicado desmantelamento dos andaimes que rodeiam Notre-Dame, deformada e soldada pelo calor do incêndio, vai ser concluído “até ao final de Setembro, o mais tardar”, assegurou o general Georgelin, na semana passada.

A restauração propriamente dita de Notre-Dame só vai começar depois desse desmantelamento, embora o chefe de Estado francês planeie uma reconstrução em cinco anos, com reabertura em 2024.
(PressTUR com Agência Lusa)

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